Um mapa do futuro ou sismografia do sofrimento.

O volume que o leitor tem em mãos, organizado por Carla Regina Françoia e editado pela Calligraphie Editora, dá continuidade a uma série de estudos emergentes na pesquisa universitária brasileira. Eles se diferenciam dos trabalhos burocráticos e usualmente encontrados em textos de conclusão de curso, pelo engajamento posicionado e pela combinação entre a forma ensaio, que, desde Freud, vêm inspirando a produção orientada pela psicanálise, com a agregação de dados e a colheita da experiência de sofrimento e contexto. Nesse sentido, os trabalhos aqui coligidos têm em comum não só a dupla função de captar, reconhecer e narrativizar formas emergentes de sofrimento, mas também de nos antecipar uma configuração vindoura na Psicologia. Depois de muito tempo confinada em discursos disciplinares – carregados muitas vezes por considerações de método formuladas em razão autojustificadora ou apenas confirmando políticas identitárias internas às escolas e abordagens –, ao que parece e testemunha este livro, chegamos ao momento de colocar nossos sujeitos à frente e fazer frente à demanda social emergente.

O sismógrafo é um pequeno aparelho que, colocado em regiões distintas do território, nos aponta movimentos imperceptíveis, mas capazes de criar certa previsibilidade sobre grandes terremotos e movimentações subterrâneas de longo prazo. Para isso, ele tem de registrar pequenos sinais de forma continuada para que padrões e desenhos se formem, criando alguma precisão para movimentos ainda não manifestos.    Os xamãs, ancestrais antropológicos e históricos de psicólogos, psiquiatras e psicanalistas, são sismógrafos vivos do sofrimento de suas comunidades. Eles captam e interpretam pequenas modificações e conforme o mandamento latino “Nocere Vulgata”, ou seja, a obrigação médica de divulgar e alertar a comunidade da chegada do mal. Mas psicólogos, xamãs, sejam eles verticais, horizontais ou transversais, não apenas fazem o diagnóstico do presente, eles também constroem mapas do futuro, ou seja, geografias e espaços simbólicos que poderão ser ocupados, como um mundo ainda por vir, e, portanto, capaz de criar, ao longo de seu devir, os próprios pressupostos e condições.

Na maior parte do mundo civilizado, ainda que o conceito de civilização esteja em atual e presente revisão e ainda que ele encontre precariedades nacionais mais do que suspeitas, a Psicologia acadêmica e a pesquisa em Psicologia no âmbito da graduação têm o sentido de exercitar o domínio de métodos e aproximar o aluno de temas potencialmente organizadores para a prática ou preparadores para o seguimento da formação como pesquisador. No Brasil, temos esta peculiaridade de que, sendo nossos cursos profissionalmente habilitantes, do ponto de vista jurídico, o contato com o sofrimento e com as suas demandas de transformação esteja mais próximo. Aliás, é o que vem sendo destacado por pesquisadores das mais diversas orientações, ou seja, que a psicanálise no Brasil tem uma pujança incomparável com a maior parte dos países, justamente pelo seu embrenhamento nos cursos de Psicologia, mas também porque nossos cursos dispõem de um teor de engajamento crescente no enfrentamento de nossas dificuldades sociais.  Isso explica por que, muitas vezes, as diferenças entre dois psicanalistas, ainda que de linhagens clínicas e vinculações institucionais semelhantes entre si, sejam maiores do que as que acontecem entre um psicanalista e um psicólogo social, um teórico de gênero ou um praticante da psicologia crítica.

Um dito ancestral da medicina diz que a clínica é soberana. Isso não deve ser confundido com a Psicologia clínica é soberana, mas lido de tal forma a colocar o sofrimento das pessoas, na forma e na particularidade pela qual ele se apresenta, no lugar de soberania para nossos juízos e perspectivas. Isso não significa identificar o sofrimento com a verdade, nem que ele possua qualquer poder transformativo inerente ou redentor, mas que ele nos orienta para o pensamento e para a intervenção.

Neste livro, encontraremos essa tese praticada de muitas maneiras. Por exemplo,

Na análise do silenciamento do sofrimento materno diante das expectativas sociais, o crescimento de um discurso de idealização individualizante sobre a experiência de dar à luz a um filho. Versão particular da obrigação de felicidade, adequação de ajustamento que paira sobre a existência feminina. Ou seja, o déficit narrativo nas gramáticas de reconhecimento, que nos obriga a colocar nosso sofrimento na forma individual, da exceção, dentro de uma linguagem que não lhe pertence.

Nossa crença na norma estranhamente cresce quando a norma se libertou dos valores que lhe eram tipicamente associados. Emerge um novo conservadorismo que se organiza mais na relação opressiva com ideias, na medida mesma em que estes ideais de neoliberalização na subjetividade contemporânea. Isso aparecerá nos discursos com enfoque científico quando estes articulam visões sobre gêneros.

Se maio de 1968 e a geração do desejo nos teriam libertado de restrições comportamentais e atitudinais em nossa relação com o sexo, a mesma geração não foi capaz de prever uma contrarreforma baseada na ereção da liberdade de conteúdo em acasalamento com a máscara de ferro da forma. Por exemplo, a exposição à pornografia pela internet tem, em jovens e adolescentes, uma função potencial de descoberta e revelação, inaudita e sem precedentes. Contudo, a ideia já questionada por Foucault, de que nossa liberdade estaria tão somente restringida por enunciados repressivos, teria-nos levado a imaginar que isso poderia ocorrer sem efeitos negativos, sem compulsões e impulsões, a dizer a sexualidade e a repeti-la como uma obrigação paradoxal de uma liberdade pasteurizada e de um erotismo empobrecido.

A visão das pessoas bissexuais acerca da própria orientação sexual também confirma como há uma espécie de repressão em estrutura de muro, ou seja, de invisibilidade e apagamento, quando se trata da experiência de si. Os modos de sofrer no binarismo de gênero são antes de tudo versões do modo de sofrer compulsório na forma do indivíduo e em um vocabulário alienígena ao sujeito, aos seus significantes, às suas enunciações e às suas narrativas. Por isso, a biopolítica e a masculinidade hegemônicas na sociedade brasileira contemporânea mostram-se cada vez mais um caso que combina a ascensão da necropolítica mundial e um capítulo da contrarreforma conservadora.

Um capítulo que nos fará descrever novos Torquemadas, na aurora do século XXI, será certamente reservado aos usos dos prazeres e das contenções químicas de nossa paisagem mental. Com os antidepressivos reduzindo sua eficácia, ao longo do tempo, com os efeitos colaterais ascendentes e com os efeitos colaterais de anos de hipermedicalização, inclusive sobre a infância, finalmente chegou a conta do DSM-n. Feita de sequelas neurológicas, protestos judiciais semelhantes ao que ora grassam contra a indústria do tabaco, conivência das pesquisas em hard science e da massiva propaganda, chegou a hora de ajustar as contas e o receituário com a emergência de outros modos de relação com o cérebro. É o caso da emergente psicoterapia assistida com psicodélicos, que promete outro tipo de experiência transformativa, agora, sim, dependente da hermenêutica de si e da clínica dos discursos.

Ao final e ao cabo, este livro é mais um capítulo da luta das universidades, das psicologias e das psicanálises para saírem dos muros e condomínios que se criaram e dos quais hoje engendram novas modalidades de ocupação do espaço público e de enfrentamento do paradoxo brasileiro, em que os ricos se protegem do espaço público com muros, enquanto os pobres veem sua privacidade invadida por exposições, contornações e exibições de sua miséria sem dignidade.

É hora de resistir, de dar as mãos e de mostrar que a Psicologia e a psicanálise foram feitas para isso, para as horas de crise, incerteza e indeterminação, para nos oferecer mapas de um futuro incerto e sismógrafos de um passado indecidido.

Christian Dunker

A prática em pesquisa na formação em psicologia (Volume 2

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