A política é a outra forma de fazer a guerra continuada contra as corporalidades construídas como abjetas. Se a guerra suspende uma aparente normalidade que constitui o cotidiano, a política e as esferas constitutivas da vida pública faz parecer que a vida segue curso, que as pessoas são iguais, porque podem votar e decidir os rumos da vida coletiva.

A guerra está exatamente na produção dessa sensação de normalidade, de regularidade. Mas um abraço, apenas um abraço, de um médico em uma travesti presa bastou, para que pudéssemos ver o estado de guerra que nos atravessa. Karl Marx nos dirá que o motor da história é a luta de classes. A luta de classes entre nós, no entanto, é atravessada por outras lutas/guerras que definem mesmo quem pode ou não viver.

Este livro reúne artigos fundamentais sobre uma das dimensões dessa guerra: a cena psicanalítica. Talvez as leitoras e os leitores possam avaliar que eu esteja carregando nas cores, ao considerar que vivemos em guerra e que a psicanálise seja um dos campos fundamentais a serem disputados.

Sem entrar no debate sobre o equívoco de setores da esquerda que consideram o debate sobre a luta por reconhecimento das identidades sexuais e de gênero como secundária, eu diria que vivemos um momento único, singular na história contemporânea, em que religião e Estado se unem para ressignificar a caça às bruxas.

As bruxas contemporâneas são as pessoas trans. As fogueiras agora ardem de fome por corpos dissidentes. Nunca antes a aliança entre religião e ciência, para atear fogo aos corpos abjetados, foi tão intenso. Somos “ideólogos de gênero”. Na cruzada moral, outro nome para a guerra declarada contra os dissidentes, os anormais e as pecaminosas não podem habitar as fronteiras internas da ontologia que constitui o Estado-nação. Nós nos tornamos moeda eleitoral. Neste mercado, a dita bancada da Bíblia, no Congresso Nacional, nunca esteve tão empoderada, e as parcas políticas públicas para a população LGBTTTI+ já foram interditadas pelo Governo Bolsonaro. No léxico das palavras abjetas, “travesti”, “transexual”, “gay”, “bicha”, “feminista” e “gênero” são as novas companheiras da palavra “comunista”. Pronunciá-las é colocar-se em risco.

Quais os efeitos desta guerra para quem teve sua subjetividade sitiada, ocupada por moralidades que definem a própria impossibilidade de sua existência? Pensar os efeitos da reconfiguração subjetiva e da cena psicanalítica é uma das contribuições dos artigos deste livro. Qual o lugar do/a psicanalista nesta batalha? Por que há um medo, significado como “objetividade”, de deslocamento do/a psicanalista? Como interpretar os desejos de sujeitos que negam os privilégios do falo no processo de demandar reconhecimento de sua identidade de gênero? Há “falha” no processo de formação desse sujeito sexuado? Ou será que a negação da diferença sexual, como imperativo de fundação da ordem simbólica, que esses sujeitos anunciam seja, ela mesma, o potencial subversivo que se tenta conter?

A luta por reconhecimento é ressignificada nos textos como “clamor”, à psicanálise, para que esta se transforme em um lugar de escuta que não tenha o império do binário como a fonte exclusiva para interpretar as demandas dos sujeitos trans.

Os artigos aqui reunidos são originais e instigantes porque, trazem a luta para as entranhas de um dos dispositivos que gozam de grande prestígio científico: a psicanálise, um campo do saber/poder que tem um considerável potencial transformativo, porque lida com dores de sujeitos que tentam reorganizar os sentidos de sua existência, em contextos em que lhe é negada essa mesma existência. Um dos fios condutores presentes nos artigos está no sentido atribuído às identidades de gêneros: aqui, as subjetividades generificadas e o próprio inconsciente perdem sua áurea universal, para serem contaminados por e nas relações de poder.

Como aponta Paula Gaudenzi, em seu artigo na presente coletânea, “os psis desconhecem as dinâmicas de poder e tirania no campo social e, portanto, não recebem estes pacientes sem que reproduzam opressões no setting analítico. Aqui está um primeiro ponto crucial que merece destaque: estaríamos, nós, psis, ignorando o social e, consequentemente, reatualizando violências em nossos consultórios?”. A pergunta, de certa forma, atravessa os artigos deste livro. Há também um forte apelo às e aos psicanalistas, para romperem com a blindagem de poder que a ciência lhes confere e para tomarem posição na guerra em curso contra as sexualidades e gêneros dissidentes. O “clamor” desses artigos é por uma psicanálise que se deixe atravessar pelas questões de gênero/sexualidades evocadas pelas existências trans. E, ao fazer esse clamor, o próprio livro transforma-se em uma arma, para nossa luta pelos direitos humanos plenos das pessoas trans.

 

Berenice Bento

Ensaios sobre as transexualidades: diálogos entre psicanálise e estudos de gênero

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